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KOLYA - o exército conquistado

A metáfora do filme (1996) é forte no sentido social e político com o que ocorreu com a antiga Checoslováquia. A invasão russa foi uma das causas da estruturação de políticas de controle social, de possibilidades e impossibilidades do livre arbítrio, e da presença de tropas militares internas no país.

O nome dado no Brasil é Kolya - uma lição de amor. Em nossa opinião é outro tipo de lição que não se escapa ao amor, de fato, mas um outro aspecto da afetividade.
A partir de um estado de direito destroçado, entre a guerra fria, e a tomada de poder por linhas comunistas extremamente mecanizadas, a Checoslovaquia passou por um processo de aculturação do que seria uma irmandade eslava. Os valores culturais, desde a tradição e sua manifestação estavam ameaçados, pode-se dizer que não se podia ser quem se era.

Se por um lado a burocracia é chamada de feminina em sua ordenação gradual para se atingir um resultado, por outro, na burocracia, a utilização desse mecanismo é masculino em sua evidência atroz. A invasão russa traz consigo velhas querelas e preconceito, põe em cheque a união eslava, no sentido de que a linguagem muito próxima se desintegrava em sua manifestação cultural.

Kolya traz consigo o sifnificado de um exército vencedor, o nome representa a conquista. Essa conquista fica implícita no filme e se define pela inocência de uma criança russa que de certa forma quer ser checa, ela deseja resgatar a alegria da expressão da língua eslava e de sua reificação através da cultura.

A história é simples, e passa em 1988, conta que Louka um violoncelista que fora despedido da orquestra por questões polítcas-burocráticas e de poder estando desempregado se obriga a enterrar significativamente os seus mortos. Ele toca em funerais. O desejo de um carro que pudesse facilitar o transporte de seu instrumento e de possibilitar melhores ganhos para a sobrevivência o põe em uma situação de ansiedade.

Solteiro convicto aceita um pacto de se casar com uma mulher refugiada russa para que esta obtenha a cidadania e assim adquirir o dinheiro para a compra de seu objeto de sonho, o carro. Ela de fato consegue esse direito e imediatamente foge com seu namorado para a Alemanha e deixa o filho com a avó para que logo voltar e buscá-lo. A avó morre e os familiares entregam o menino a Louka.

A situação é estranha para aquele que deseja se manter na sua singularidade de artista sem família. No momento que aceita Kolya, ao mesmo tempo reintegra-se à sua origem eslava, e ao mesmo tempo encara a sua situação política, e sua decisão de favorecer uma mulher russa refugiada, e ao mesmo tempo põe e risco a vida de um inocente, e assim necessita se recompor como um homem de responsabilidade universal, isto é livre e capaz.

O filme mostra a marcha da Perestróika, e a desintegração do bloco soviético. A conhecida Revolução de Veludo que processou a redemocratização do país.  Kolya e Louka buscam se entender, aprendendo uma linguagem irmã que se fortalece com a amizade ao mesmo tempo que questões sociopolíticas.

Com a mudança da política interna, Kolya pode retornar à mãe que vive no oeste da Alemanha, eles se despendem na estação de trem como velhos amigos. Louka retorna a seu país e à orquestra.

Kolya une linguagem, cultura, política, direitos num só movimento representado pela inocência da criança. O menino sem pai, na verdade é "sem pátria" que possui a mesma raiz etimológica. Mais que todas as forças Kolia é o exército que conquista a paz, o vencedor.

            Em 1993 a Tchecoslováquia deixou de existir com a dissolução da federação formando a República Checa e a Eslováquia.



DIREÇÃO
Jan Sverák


ROTEIRO
Pavel Taussig, Zdenek Sverák

ELENCO
Zdenek Sverák, Andrei Chalimon, Libuse Safránková, Ondrej Vetchý, Stella Zázvorková, Ladislav Smoljak, Irina Livanova, Silvia Suvadova, Liliya Malkina, Karel Hermánek, Petra Spalková, Nella Boudová, René Pribil, Miroslav Táborský, Slávka Budínová, Jirí Sovák.
           

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