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E seremos artistas

 


    As galhadas ressecadas são boas para fazer casinhas de passarinhos. Não pedirão licença porque agora as barreiras do mal acabaram. 

- Posso?

    Dirão felizes com as chaves do apartamento teatral:

- Toda.

- Toda à minha vida por andar safo com o fardo de poucas crenças.

    A rua vai ficar mais larga, os carros poderão ficar menos tempo no sinaleiro do sistema wave; vão nos cumprimentar rapidamente e poucas vezes seremos atropelados.

    A floresta cimentícia tecnológica chegará com mais rapidez ao banco imobiliário. Os buracos fundos dos viadutos ecoarão a pequena grandiosidade de suas feituras. Seremos mais ecológicos, podemos pegar atalhos e desviar a cara dos radares de duas pernas.

    Os amantes da arte não vão para Veneza porque sabem que ela não está lá - e ficarão com chatos por isso -, correrão as esquinas em busca de qualquer cárie mental na tentativa de obturar o inócuo, e beijarão a única expressão inconcebível das que poderiam. 

    O mundo é um quintal imundo, feito de interesses e guerra. Porém, sabe-se que a morte é o único caminho para os vivos. Vai ao teatro e senta-se na cadeira dos favorecidos, tantas demarcadas. Os costumeiros esperados não vão, estão entregues às mofinas veleidades sutis da mesmice, os doces da repetição. Comem e falam ao mesmo tempo com a boca cheia do óbvio. E fica lá aquele corpo estirado na butaca e ao lado o maravilho privilégio do campo vazio.

- Ah! Os mortos, quantos sorridentes!

    Equipa pensamentos de passeio noturno, alma armada, visita desejos e ri aos holofotes de tantos dentes. E morde. Vamos à boda dos prazeres, comer alguém vivo.

    Atravessa a rua com elegância, os carros esperam e esperam. Latas fervidas, buzinam.

- Posso passar, satã?

- Pode

- Toda.

    É um revolucionário que correu a pé, atravessou desertos; chega até aqui, talvez com um elétrico, grita com Cólera, o cão que ladra da janela do teto:

-  Eu vou incendiar a sua paz!

    Ninguém dá bola, os atravessadores da rua mostram as chaves dos prazeres imobiliários, param, acendem cigarros, charutos e riem do arvoredo estagnado dos designs das latarias.

    Malsim, vendo o desmazelo reunido do sujeito que veio da terra, ainda na passarela elevada com espinha de peixe, entreolham-se e cospem e dançam, também gritam:

- Zotão, candego!

- Tacanho!

- Vai te catar!

- Você não tem cacife.

E todos tilintam as chaves:

- Ahá, vai ficar a ver navios!

- Uhuu!

    O cara perdeu o chapéu de tanto ódio, e o sinal abriu e em maio ele começou a revolução, entrou para o partido pequeno e verde conhecido como marciano. Virou ator, andou de trás para frente; agora fala retamente a língua brasileira. E com esforços comprou um apartamento, depois alugou, foi morar numa rocinha distante, faz casinhas de passarinho, vende lenha, cães e papéis para o teatro das crenças.

    Era o seu papel. Sempre passa ali a ver os idosos a chacoalharem chaves, ainda late, buzina. No fim, o surrealismo vence e faz, de um jeito a outro as radicais mudanças. No final de todo mal, todos seremos artistas do tipo revolucionário e de outro planeta.

    Eu sei, a igualdade ofende.

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AMONTOADO DE TECIDOS SOBRE A MESA





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